Análise comparativa do discurso modernizador das cidades de Sorocaba e Aracaju
Inúmeras cidades, para ser mais exato o Brasil quase por inteiro, tentaram implantar no final o século XIX início do século XX o modo de ser dos europeus nos seus habitantes. Em suma, um número significativo de cidades brasileiras tentaram e muitas delas conseguiram importar a cultura européia para as suas cidades. Como assim? Simples, a partir desta "importação",desejada por boa parte da elite local, toda a população deveria se portar como um "bom" e "civilizado" europeu. Tornando-se este o único modo aceitável e modelo para toda uma sociedade. Independentemente dos anseios das pessoas que formavam toda a cidade.
Contudo, essas imposições ignoravam o fato do Brasil ser muito adverso do mundo europeu. Tanto no que se refere a clima, vegetação, quanto no que toca a nossas tradições, costumes, a cultura que nos havíamos construído em si. Ao longo de quatro séculos. Mas, apesar de todas essas contradições Sorocaba e Aracaju estavam dispostas a apagar o seu passado e construir uma nova história. Onde elas agora seriam cidades modernas, industrializadas. Ambas desejavam uma nova arquitetura, uma nova urbanização, novas casas, prédios, instituições, idéias, uma nova memória, e principalmente um novo estilo de vida. Que se assemelhasse é claro ao europeu.
É devido a todas essas contradições e a todo esse desejo de mudar. Que Sérgio Buarque de Holanda afirma em seu livro: Raízes do Brasil. ..."Que somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra". Vê-se que para ele essas mudanças teriam nos tornado uns estranhos em nossa própria terra. Pois a nossa cultura, no geral, não se adequa a nossa realidade.
Voltando ao tema que me levou a redigir este texto vamos agora analisar como é que se deu a construção do discurso modernizador em Sorocaba. Para isso analisaremos a idéia de modernidade veiculada na cidade desde 1903 por alguns setores sociais ( neste caso a elite Sorocabensse ).
A elite de Sorocaba concretizou o seu avanço através da denominação Manchester Paulista. Esse termo segundo seus construtores representava "um salto qualitativo na sua produção econômica, em suas relações sociais, na importância política e cultural de seus habitantes". Algo extremamente similar o que estava ocorrendo na nova capital de Sergipe na primeiras décadas de XX, Aracaju. Aqui como em Sorocaba a elite acreditava que modernizar a cidade traria como consequência imediata, o progresso da cidade.
Assim para conseguir a tão desejada modernização ambas tentaram apagar o seu passado. Sorocaba tentou pôr para "debaixo do tapete" que até o século XIX estava ligada a grande feira de muares. Que era conhecida como a maior fornecedora de animais para o transporte de carga da região sudeste. Aracaju em contrapartida não tinha muito o que esconder já que era uma cidade ainda muito nova tendo sido transferida em 1855. Ela em si já havia sido pensada para ser uma cidade moderna, modelo. Muito diferente de São Cristóvão, a antiga capital de Sergipe, que era uma cidade essencialmente colonial.
Sergipe tinha como principal elemento do seu passado a criação do gado e a produção da cana-de-açúcar. Além de enormes problemas sociais, estruturais e arquitetônicos. Pelo menos era essa a imagem que a elite sergipana tinha do Estado. E isso, para eles era bastante vergonhoso. E não deveria se repetir na nova capital do Estado, Aracaju.
Tanto Sorocaba quanto Aracaju tiveram como ponta pé inicial a implantação da indústria têxtil. E tinham como principal tendência econômica e política as idéias liberais, evolucionistas, positivistas. Ambas as cidades foram ao encontro do progresso e passaram a defender seu centro urbano como um espaço de prosperidade, onde as mais "modernas" técnicas industriais eram aplicadas para o "bem de seus habitantes".
Vejam que coloquei alguns termos entre aspas para indicar a falta de veracidade destes. Pois, não obstante a ardua luta empregada pelas elites de Sorocaba e Aracaju para se tornarem cidades modernas ( ao estilo europeu, em especial o que estava sendo empregado na França no mesmo período ) nas décadas de 10 e 20 do século XX. Isso não ocorreu de fato. Nenhuma das duas cidades conseguiu apagar e dizimar o passado que elas tinham.
Elas lutaram e por bom tempo o discurso modernizador das elites dessas duas cidades conseguiu "maquiar" o passado destas. A supremacia deste discurso foi quase que total ao longo de décadas.Poucos criticaram ou verificaram a veracidade deste discurso de elite. Um dos poucos que contrariou este discurso foi o francês Paulo Walle. Ao afirmar que Sergipe era um Estado atrasado e Aracaju uma verdadeira "cidade de palhas".
Todavia, pesquisas recentes têm revelado o outro lado da modernização. O lado dos "pobres homens" que trabalharam nas indústrias para a "modernização" destas cidades. É com base no relato destes que conseguimos ver as várias epidemias que ocorreram naquela época, o modo precário e quase desumano no qual eles eram obrigados a trabalhavam nas fábricas, a dificuldade que eles enfrentavam para chegar ao trabalho - devido a falta de urbanização e saneamento nos bairros pobres da cidade -, o precário sistema de educação e saúde, sem falar do pequeno salário que os operários recebiam em troca de muito trabalho e produtividade.
Foi nesse contexto de miséria e inúmeros problemas sociais, políticos e econômicos que o surgiu o discurso modernizador das elites de Aracaju e Sorocaba. Portanto, é imprescindível antes de qualquer estudo olhar as duas versões apresentadas. Tanto a da elite quanto a da população marginalizada. Para podermos então criar nossas hipóteses e procurar algumas respostas aos questionamentos que forem sendo apresentados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário